Premortem
Um postmortem investiga por que algo morreu depois que morreu. O premortem faz o oposto: você imagina que já falhou e descobre por quê antes de começar.
O método é do psicólogo Gary Klein, publicado na Harvard Business Review. Daniel Kahneman — Nobel, autor de "Rápido e Devagar" — chamou de sua técnica de decisão mais valiosa. Google, Goldman Sachs e Procter & Gamble usam antes de decisões grandes.
A intuição central: quando você pergunta "o que pode dar errado?", as pessoas respondem cauteloso, hedge, genérico. Quando você diz "isso já falhou, me conta por quê", o cérebro entra em modo narrativo e gera motivos muito mais específicos, criativos e honestos. Pesquisadores de Wharton e Cornell batizaram isso de "hindsight prospectivo" e mostraram que aumenta de forma significativa a capacidade de identificar causas de resultados futuros.
Por que isso importa numa decisão assistida por IA: o modelo tende ao otimismo cordial. Pergunte "esse plano é bom?" e ele acha razões pra dizer sim. O premortem quebra esse padrão ao forçar o enquadramento "isso está morto, explique como morreu". O modelo para de procurar razões pro plano funcionar e passa a explicar como ele desmoronou.
Esta skill carrega o método canônico completo em references/metodo-canonico.md — leia esse arquivo no Passo 2.5 (triagem) e no Passo 5 (relatório), quando precisar dos critérios detalhados e do template HTML.
quando rodar um premortem
Bons alvos:
- Um produto ou feature prestes a ser construído
- Um plano de lançamento com dinheiro ou reputação em jogo
- Uma mudança de pricing ou de modelo de negócio
- Uma contratação prestes a acontecer
- Um pivô de estratégia ou posicionamento
- Uma parceria ou negócio em avaliação
- Qualquer compromisso onde errar custa caro
Maus alvos:
- Ideia vaga sem plano concreto ainda → ajude a planejar primeiro, depois rode o premortem
- Pergunta com uma resposta certa → só responda
- Pedido de feedback num rascunho → isso é edição, não premortem
- Decisão já tomada e irreversível → o premortem só serve enquanto dá pra mudar de rumo
coleta de contexto (a barra mínima)
Um premortem vale o que vale o contexto que recebe. Input vago gera cenário de falha vago que não ajuda ninguém. Antes de rodar, bata uma barra mínima.
passo 1: varra o contexto que já existe
Antes de perguntar qualquer coisa, procure o que já está disponível:
A. A conversa atual. O usuário pode já ter descrito o plano, o lançamento, o produto ou a decisão antes nesta sessão. Releia e extraia o que for relevante.
B. O workspace. Varra rápido por arquivos com contexto:
CLAUDE.md(contexto de negócio, preferências, restrições)- Qualquer pasta
memory/(perfil de audiência, dados do negócio, decisões passadas) - Arquivos que o usuário citou ou anexou
- Briefs, planos ou projetos ligados ao que está sendo premortemado
Use Glob e Read rápidos. Não gaste mais de 30 segundos. Você procura os arquivos-chave que ancoram os cenários de falha na realidade.
passo 2: avalie se o contexto basta
Depois de varrer, cheque se dá pra rodar um premortem útil. Você precisa de cinco coisas — as três primeiras são obrigatórias, as duas últimas afiam o resultado:
- O que é? — Entendimento claro do que está sendo premortemado. Você precisa descrever de volta em uma frase.
- Pra quem / quem é afetado? — Audiência, cliente, time, stakeholders. Os cenários de falha dependem muito de quem está envolvido.
- O que é sucesso? — Que resultado o usuário espera. A falha se define invertendo o sucesso. Sem saber o que é vencer, você não define o que é perder.
- Qual o horizonte de falha? — Quando a falha ficaria visível. Não fixe "6 meses". Calibre pelo tipo de decisão: lançamento falha em semanas, pricing em um trimestre, contratação em 12-18 meses, estratégia em 1-3 anos. Se o usuário não disser, escolha o horizonte que melhor encaixa e declare a escolha.
- Confiança inicial. — Pergunte: "De 0 a 100%, quanta confiança você tem de que isso dá certo?" Anote o número. No fim, você revisita — o delta torna visível o que o premortem mudou.
passo 3: preencha as lacunas conversando
Tem os três obrigatórios? Avance pro premortem. Não pergunte o desnecessário.
Falta algum? Pergunte primeiro o mais importante. Uma pergunta por vez. Reavalie depois de cada resposta. Continue até bater a barra, nunca além do necessário. Se der pra inferir do contexto, infira em vez de perguntar.
A meta é bater a barra mínima rápido, sem o usuário sentir que está preenchendo formulário. Conversa, não interrogatório.
como funciona a sessão
passo 1: monte o enquadramento
Com contexto suficiente, monte o enquadramento explícito. Algo como:
"Tenho contexto suficiente. Vamos rodar o premortem. A premissa: é [data + horizonte calibrado] e [o plano/lançamento/decisão] falhou. Acabou. Estamos olhando pra trás pra entender o que deu errado."
Esse enquadramento é o mecanismo. Ele desloca o modo de "avalie esse plano" (que dispara respostas cordiais) pra "explique por que isso morreu" (que dispara identificação honesta e específica de falha). Sem ele, a análise vira avaliação educada de risco.
passo 2: gere os motivos de falha (premortem bruto)
Antes de listar os motivos, rode a aritmética do plano. Pegue os números que o usuário deu (preço, base, meta, prazo, custo) e faça a conta. Muita falha mora numa contradição entre os próprios números do plano que ninguém somou. Exemplo real: "manter 90% da base" tolera 10% de churn, mas "fechar com receita maior" depois de subir o preço 82% tolera até ~45% de churn — os dois critérios de sucesso colidem, e a meta de retenção morre primeiro. Calcule break-evens, taxas implícitas e onde duas metas se contradizem. Isso vira material pros motivos de falha.
Depois, rode o premortem bruto como uma análise única e abrangente. Sem categorias prescritas, sem lentes, sem amarras. Só o método Klein:
"Este plano falhou em [horizonte]. Gere todo motivo genuíno que pode tê-lo matado. Seja abrangente. Seja específico. Ancore cada motivo nos detalhes reais do plano. Não encha com motivo fraco e não pare cedo se houver mais."
Cada motivo de falha precisa de:
- Especificidade — vale pra ESTE plano, não conselho genérico que serve pra qualquer coisa
- Evidência — toda razão cita uma evidência (dado, padrão observável, experiência passada). Sem evidência, a razão é ansiedade disfarçada e desce pra Tigre de Papel no Passo 2.5
- Ameaça real — não inconveniência menor nem caso extremamente improvável
A lista deve ter o tamanho que for real pro plano. Alguns têm 4 modos de falha genuínos. Outros, 9. Não force número.
passo 2.5: triagem Tigre / Tigre de Papel / Elefante
Aqui você separa o que merece energia do que só assusta. Leia references/metodo-canonico.md §triagem para os critérios completos. Em resumo, classifique cada motivo de falha:
- Tigre — ameaça real, com evidência. Cenário de falha plausível e concreto. Ignorar seria negligência. → Vai pro aprofundamento (Passo 3).
- Tigre de Papel — assusta no papel, mas é improvável ou de impacto gerenciável quando você olha de perto. Geralmente vem de ansiedade, não de conhecimento específico. → Registra e segue. Não gasta energia.
- Elefante — o que todo mundo sabe mas ninguém fala. Costuma ser pessoas, política ou ego, não técnica. É a causa real de falha com mais frequência do que parece. Para um founder ou criador solo, o elefante é a premissa em que ele está emocionalmente investido e se recusa a questionar. → Nomeie explicitamente. Não deixe escapar.
Para cada Tigre, atribua urgência:
- Bloqueia-Lançamento — se não resolver, não lança. Precisa de plano de mitigação, dono e data de decisão.
- Fast-Follow — resolve nas primeiras 2 semanas pós-lançamento.
- Monitorar — acompanha e ataca se escalar.
passo 3: agentes de aprofundamento (em paralelo)
Pegue cada Tigre da triagem e gere um sub-agente por Tigre, todos em paralelo. Mais um agente red-team da premissa, separado. Sempre paralelo — sequencial perde tempo e deixa uma resposta contaminar a outra.
Se você não tem sub-agentes (ambiente sem essa capacidade, ou você já é um agente que não consegue aninhar): rode cada aprofundamento inline, como passos analíticos distintos e independentes — um por Tigre, mais o red-team. Trate cada um como se fosse um investigador separado: não deixe a análise de um Tigre vazar pra outro. O resultado é o mesmo; só a orquestração muda.
Template do sub-agente de Tigre:
Você é um investigador num premortem. Recebeu um motivo de falha específico pra analisar a fundo.
O plano:
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[contexto completo: o que é, pra quem, o que é sucesso, horizonte, + contexto relevante do workspace]
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ENQUADRAMENTO: É [horizonte]. Este plano falhou.
SEU TIGRE: [o motivo de falha específico, com a urgência atribuída]
Vá fundo nesta falha. Escreva a história de como ela aconteceu de verdade. Seja específico. Use detalhes do plano. Faça parecer real, como estudo de caso de algo que aconteceu mesmo.
Sua saída:
1. A HISTÓRIA DA FALHA: 2-3 parágrafos narrando como essa falha específica se desenrolou. Use detalhes do plano. Nomeie os momentos exatos em que as coisas deram errado e por quê.
2. A PREMISSA SUBJACENTE: A coisa que o usuário tomava como dada e que tornou essa falha possível. Uma frase.
3. SCORE PROBABILIDADE × IMPACTO: Probabilidade (Baixa/Média/Alta) de essa falha acontecer no horizonte + Impacto (Baixo/Médio/Alto) se acontecer. Uma linha de justificativa pra cada.
4. TRIPWIRES: 1-2 gatilhos datados e observáveis — não sensações vagas. Formato: "Se até [data] [métrica/evento observável], então [ação: parar/pivotar/dobrar]." Algo que você consegue medir ou ver.
Máximo 300 palavras. Seja direto. Não suavize. Não enrole.
Template do agente red-team da premissa:
Você é o red-team de um premortem. Seu trabalho não é achar riscos no plano — é atacar a PREMISSA do plano.
O plano:
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[contexto completo]
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Pergunte: e se a ideia inteira estiver fundamentalmente errada? Não "tem um risco aqui", mas "a tese central não se sustenta". Ataque a coisa que o usuário nem percebe que está assumindo: que o problema existe, que a audiência se importa, que o timing faz sentido, que ele é a pessoa certa pra isso.
Sua saída (máximo 250 palavras):
1. A PREMISSA QUE NINGUÉM QUESTIONOU: a tese central que, se falsa, derruba tudo.
2. O ARGUMENTO DE QUE ELA É FALSA: o caso mais forte que você consegue montar de que o usuário está errado na raiz.
3. O TESTE MAIS BARATO: o menor experimento que falsificaria essa premissa antes do usuário se comprometer.
passo 4: síntese
Com todos os agentes prontos, leia cada aprofundamento e produza a síntese. Esta é a entrega principal — a maioria lê a síntese e só passa o olho nos cards individuais. Faça específica e acionável.
RELATÓRIO DO PREMORTEM
A Falha Mais Provável — Qual cenário é o mais provável dado o que você sabe? Por quê? É nele que o usuário foca primeiro.
A Falha Mais Perigosa — Qual causaria mais estrago se acontecesse, mesmo sendo menos provável? É contra essa que vale comprar seguro.
A Matriz Probabilidade × Impacto — Posicione cada Tigre no grid 2×2 (Prob × Impacto). Os do canto superior-direito (Alta × Alto) são prioridade absoluta. Use os scores dos agentes.
A Premissa Oculta — De todas as análises, qual a maior premissa que o usuário provavelmente não questionou? Puxe do agente red-team. Costuma ser onde mora o valor real do premortem: o tão óbvio pro usuário que ele esqueceu que era uma premissa.
A Visão de Fora (base rate) — Saia do plano específico e olhe a classe de referência: "decisões como esta falham em torno de X% das vezes." Se você tem dados, cite. Se não, dê a estimativa honesta com a lógica. Isso ancora a imaginação na taxa histórica real, não no otimismo.
O Plano Revisado — Que mudanças concretas deixariam o plano mais resistente? Sequencie pelo menor experimento falsificador primeiro: a ação mais barata que testa a premissa mais arriscada vem antes de qualquer compromisso grande. Cada revisão mapeia direto pra um cenário de falha. Nada de "considere seu pricing" — diga "rode um piloto de R$X com 20 pessoas antes de travar o preço público de R$Y."
Os Tripwires — 3-5 gatilhos datados que previnem ou detectam os modos de falha. Cada um: métrica/evento observável + data + ação. Os Tigres que Bloqueiam-Lançamento ganham dono e data de decisão.
Os Elefantes — Nomeie cada elefante explicitamente. Para cada um, decida: atacar (atribui dono) ou aceitar conscientemente (documenta a aceitação e o porquê). O que não se nomeia, não se resolve.
A Confiança Revisitada — Lembre a confiança inicial do usuário (passo de contexto). Pergunte de novo agora. O delta mostra o que o premortem mudou. Se caiu muito, ótimo — você evitou um erro caro antes de cometê-lo.
passo 5: gere o relatório HTML
Gere um relatório HTML visual e salve no workspace do usuário. Leia references/metodo-canonico.md §relatório para o template e os princípios de design completos.
Arquivo: premortem-relatorio-[timestamp].html
Em resumo: arquivo HTML único, CSS inline, fundo escuro, tipografia limpa, escaneável. A síntese no topo (é o que mais gente lê). Um card por modo de falha, com cor por classificação (Tigre / Tigre de Papel / Elefante). O grid da matriz P×I como visual central. Rodapé com timestamp e o que foi premortemado. Abra o arquivo depois de gerar.
passo 6: salve a transcrição
Salve a transcrição completa como premortem-transcricao-[timestamp].md, no mesmo lugar:
- O contexto coletado (o que / pra quem / sucesso / horizonte / confiança inicial)
- Os motivos de falha brutos + a triagem
- Todos os aprofundamentos dos agentes + o red-team
- A síntese completa + a confiança revisitada
formato de saída
Toda sessão produz dois arquivos:
premortem-relatorio-[timestamp].html # relatório visual pra escanear
premortem-transcricao-[timestamp].md # transcrição completa pra consultar
O usuário vê o HTML primeiro. A transcrição fica pra quem quiser entrar no raciocínio de cada cenário.
Dê também um resumo curto no chat: a falha mais provável, a premissa oculta e a única revisão mais importante. Três frases, no máximo. O relatório tem o resto.
exemplo: premortem de um lançamento
Usuário: "premortem disso: vou lançar um workshop ao vivo de R$1.500 sobre como usar Claude pra times de marketing. 50 vagas. Alvo: gestores de marketing em empresas de 10-50 pessoas."
O premortem bruto identifica 6 motivos de falha. A triagem classifica:
- Tigre (Bloqueia-Lançamento): gestor de marketing nessa faixa de empresa precisa de aprovação pra gastar R$1.500 em desenvolvimento — fricção que você não contou. Evidência: ciclo de compra B2B nessa faixa passa por aprovação de orçamento.
- Tigre (Bloqueia-Lançamento): quem de fato compra pode ser o solopreneur, não o gestor de time — descasamento entre conteúdo e plateia. Evidência: quem segue conteúdo de IA aplicada hoje é majoritariamente operador solo.
- Tigre (Fast-Follow): montar workshop pra times exige ambiente de demo com dados realistas e setup multi-conta — 5 semanas de prep, não as 2 que você orçou.
- Tigre de Papel: "um concorrente pode copiar o workshop" — possível, mas o ciclo de execução dele é de meses; baixo impacto agora.
- Elefante: você está apaixonado pela tese "gestores de marketing são minha audiência" porque é onde você quer estar, não onde seus compradores estão. Ninguém te disse isso ainda.
- Tigre de Papel: "a plataforma de transmissão pode cair" — gerenciável com backup.
Os agentes vão fundo em cada Tigre + o red-team ataca a premissa "gestores de 10-50 pessoas são alcançáveis".
Síntese: A falha mais provável é o descasamento de audiência — você mira em quem precisa de aprovação pra gastar R$1.500. A mais perigosa: atrair solopreneur em vez de gestor faz seus depoimentos e cases não ressoarem com o comprador-alvo das próximas turmas, o que compõe o problema. A premissa oculta (do red-team): "gestor de marketing em empresa de 10-50 pessoas" não se identifica assim e não frequenta os mesmos lugares — a audiência pode não ser alcançável. Base rate: workshops ao vivo de ticket alto em audiência fria convertem na casa de 1-3%. Plano revisado, menor experimento primeiro: rode um piloto de R$197 pra 20 pessoas. Use pra descobrir se seu comprador real é gestor ou solo, e construa o workshop cheio pra quem de fato aparecer. Tripwire: se em 7 dias de divulgação menos de 10 inscritos forem gestores de time, o alvo está errado — pivota.
notas importantes
- Sempre gere os agentes de falha em paralelo. Sequencial perde tempo e deixa respostas anteriores influenciarem as seguintes.
- Sempre monte o enquadramento explícito. "Isso já falhou" é o mecanismo psicológico que faz funcionar. Sem ele, a análise vira avaliação educada de risco em vez de identificação honesta de falha.
- Exija evidência. Razão de falha sem evidência é ansiedade. Desce pra Tigre de Papel. É isso que separa ameaça real de medo.
- Abrangente, mas sem encher. Ache todo motivo genuíno. Não pare em 3 se houver 7. Mas não force 7 se houver 3.
- A síntese é o produto. A maioria lê a síntese e passa o olho nos cards. Faça específica e acionável.
- Não suavize. O ponto do premortem é te dizer o que você não quer ouvir antes da realidade dizer. Se o plano tem problema sério, diga direto.
- O plano revisado é concreto. Nada de "considere testar seu pricing". Diga "rode um piloto de R$197 com 20 pessoas antes de travar o workshop de R$1.500". Toda revisão é algo que dá pra fazer esta semana.
- Respeite a barra mínima de contexto. Premortem sobre contexto insuficiente gera falha genérica que desperdiça o tempo do usuário. Melhor uma pergunta a mais do que um premortem ruim.
- O Elefante é onde mora o ouro. O que o usuário evita falar costuma ser a causa real. Nomeie mesmo quando for desconfortável.